uma onda molha os pés
quanto tempo já se ia?
nesse cabelo salgado
mar fazia
quarta-feira, 9 de março de 2016
querida
a noite está quente e hoje eu vou sair. de vestido curto e colado, cabelo solto e batom. sou alta mas vou de salto. quero dançar e beber. quero flertar com um lindo desconhecido e encostar nele quando passar por perto. quero um homem cheiroso e de dentes bonitos pra ficar de conversa mole, vamos fumar juntos do lado de fora, talvez beijar. se me cansar dele, quero dançar com outro, jogar meu cabelo de lado, exibir minha nuca, deixar suar.
hoje a noite dormirei fora ou vou trazer alguém pra cá. quero a companhia de alguém que talvez ainda não conheça. a gente pode se divertir, mas tem que ser quem eu escolher. eu saí pra procurar um homem. me vesti pra provocar um homem, mas tem que ser o homem que eu querer.
não quero experimentar bebidas que sem o meu consentimento alteram o meu estado de consciência e me fazem menos resistentes a uma violência qualquer. não quero ser forçada, não quero murros no meu rosto. não quero minha pele ferida e meu sangue se espalhando por tudo.
quero uma noite louca e consentida e eu posso querer. quero viver pra querer.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
mirante da lua
pouco a pouco a lua se avolumou na nossa frente e impacientemente tua mão soltou-se da minha, como se num instante se desfizesse todo o seu medo de altura. "quanto tempo vai demorar ainda?" você perguntou e eu mirei para fora e para baixo e avistei muito pequeno o homem que trocava peças do motor da máquina. não respondi.
não tínhamos mais pipoca e refrigerante. minha ideia subir na roda gigante, insisti como criança e você concordou com apenas uma volta, mas daí...
tentei te distrair com suposições sobre a vida das pessoas que distantes, pequeninas circulavam lá embaixo pelo parque. as vozes nos chegavam num murmurio sem sentido, misturando gritos e risos com o barulho do vento. teu olhar sorriu com a minha graça. mas no fundo destes olhos rasos senti um tanto dessa pena, dessa dó que te faz atribuir a mim um afeto desinteressado que não se preocupa em me ceder uma ou duas vontades, mas sem nunca arder.
meu lenço voou por descuido e eu choraminguei pois aquele era de seda pura. você me beijou na boca com lábios doces ainda um pouco grudentos de maçã do amor e com dedos macios me tocou por baixo da minha saia.
tudo ficou por um momento suspenso no ar, meu lenço de seda se prendeu no galho de uma sibipiruna. aquela cadeira no alto da roda gigante, nosso mirante da lua, desfeito num segundo quando o motor com um impulso barulhento voltou a girar.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
ao meu velho e bom ano
cheguei completamente embriagada e você com tudo. se morresse naquele estado não sei o que me esperaria por trás das portas da percepção. depois de chorar por quase um dia sufocada e claustrofóbica, você me levou pra passear de barco. tudo contra a minha vontade, mas não se deixa uma amiga chorando sozinha.
você acabava de chegar com o mar e foi me enchendo de calor e paz.
que primeiro dia lindo você fez.
não fosse pelo lixo. tinha todo aquele horrível lixo espalhado por toda parte. não foi como o lixo pelas ruas do recife, não era o mesmo lixo do carnaval no rio. sempre aceitei na vida o lixo no cenário urbano, sua circulação noturna, o vasculhar dos ratos. mas ali na natureza exuberante da mata atlântica, o lixo era a incômoda constatação do nosso fracasso.
antes da sua partida, te sinto ainda presente e intenso, arrastando suas demandas, bagunçando os meus ciclos, me fazendo esquecer a ordem das luas. não te deixarei pra trás. você vem comigo um pouco mais. não vai dar pra começar um outro ano sem você, nessa lucidez plena e concreta com horário de almoço e janta.
quando você me deixar seu último olhar, vou me permitir últimas e sinceras lágrimas. e enfim irei festejar.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
a dialética das coisas
existe uma parte minha que não desiste do que é utopia. esse horizonte pra onde caminho exausta, esse abismo de se sentir. busquei a racionalidade, mas ali não me senti suficientemente profunda. não o quanto me sinto numa roda de embriagues.
rimos das suas memórias, ofendemos a sua patologia que tão pouco nos importa. eu choraria as dores do mundo sozinha mas eu quero uma dor mais coletiva. eu preciso chorar pelo mundo, chorar por você que mal se deixa levar pelos momentos, eu preciso ferir suas lembranças patéticas, memorias parciais.
quero te beijar no rosto no meio da rua. quero a nossa entrega e achar graça, quiça até bonito quando nos perdemos e nos deixamos envolver por outras vozes, outras palavras, outras razões. para acreditar que a vida segue, que as decisões estão além da minha existência. se é que existo.
quando as luzes me faltam busco a poesia. quando a poesia me falta regresso a dor. não busquei culpados porque fui alienada da habilidade de construir julgamentos. me é exaustivo, me falta retórica.
existe uma luta. nela eu quero ser mais do que sou. vou construindo esse caminho.
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