sexta-feira, 23 de outubro de 2015

piu piu

tem gente que ainda chama o twitter de miniblog

terça-feira, 22 de setembro de 2015

vespertina

aproximo minha cadeira da janela para assim ser tocada pelo sol. não me incomoda o calor, troco os óculos, levanto a blusa e acendo um cigarro usando fósforos de uma caixa que encontrei esquecida numa gaveta. 

tem semanas que não fumo. não sei quantas, algumas, não conto o tempo. me deixo tomar pelo enjoo da fumaça, fecho os olhos, quero viajar, de careta não dá. me envolvo em meu silêncio, ao longe ouço os motores dos carros, ouço as árvores conversando. 

acaba o meu trago, o telefone toca. acaba a minha paz.  

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

quem dera que se cumprisse o desejo do meu coração

(jó 6:8)



aquele dia em que a bíblia tem mais poesia que a vida

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

eu prefiro assumir a minha fraqueza

do que mentir pra você.

sábado, 12 de setembro de 2015

o último gole

a luz da manhã me desperta mesmo com as janelas fechadas e nessas horas eu ainda te toco com desejo porque gosto do calor do teu sono.

sentamos num mesmo bar como se fosse a vez primeira. te conto uma história infame, argumento com pouca convicção e você ainda sorri um riso natural e melhora a minha retórica. você ainda bebe o meu último gole, aquele que mantenho por capricho no fundo do copo.

o copo em que se bebe nunca deve permanecer vazio. em mim transbordou.

sábado, 15 de agosto de 2015

eu não consigo ir

eu nunca tento fazer o que não me sinto seguramente capaz de realizar. dissertar, por exemplo, eu evito. tem mais de uma dezena de anos recebi um conselho: escrever alivia dores emocionais. também me disseram que para se escrever bem deve-se escrever todos os dias. não sei se são verdades, mas de fato eu gosto de escrever. mesmo sem nenhum talento, mesmo sem nenhuma bossa.

eu acreditei que manter essas palavras aqui já não fazia nenhum sentido, que não tenho mais idade nem tempo pra baboseiras sentimentais. eu errei. e me dei conta do meu erro tão logo o cometi. chorei.

dias passaram, escrevi mensagens em sms e enviei para mim mesma. lembrei meu primeiro blog, quase infantil, as poesias que ainda estão no recanto das letras, as pessoas de quem pude me aproximar pelo laço da escrita. então eu voltei mais uma vez a me ocupar desse canto meu, do meu modo particular e desinteressado. voltei.

terça-feira, 28 de julho de 2015

coração de passarinho

eu segurava a mão fria de vovó entre as flores postas, enquanto minha mãe foi pegar um café. nunca comi nada em cemitérios, tenho horror a lanchinhos fúnebres, não bebo nem água. nada. não me parece um bom lugar pra se fazer refeição e sabe, comida carrega energia. respirei fundo e engoli saliva, o que fez meu estômago revirar de fome e dor.

precisava sair dali. olhei uma última vez pra vó belinha, ela estava bonita apesar do algodão no nariz. eu amava suas rugas. quando criança gostava de criar caminhos pela pele já tracejada pela vida. a tia anita tinha passado até o perfume de alfazema nela. estava fofinha e cheirosa como sempre, pena a ausência de vida.

saí por uma porta de vidro lateral na qual precisei pedir licença a pessoas que nunca vi na vida, mas que deviam conhecer minha falecida avó. mirei as crianças que estavam ao redor de um banco e se comportavam com mais agitação do que a recomendada para a ocasião. me aproximei curiosa e pude ver um passarinho cinzento e muito pequeno acomodado nas mãos de gabriel. de olhos fechados e bico entreaberto, eu logo percebi que estava morto. 

larissa, a menorzinha, puxava para baixo a blusa do irmão, tentando enxergar acima de seu campo de visão. segurei a menina no colo e ela passou o dedo pela cabeça do bichinho. 

'e agora?' - perguntei

'tia, ele pode ficar com a vovó?'

'acho que sim'

voltamos para a sala onde as velas queimavam, misturando cheiro de parafina com o das flores que já murchavam. pedi que gabriel me passasse o passarinho. antes de me entregar, ele lhe deu um suave beijinho e a larissa, claro, também quis beijá-lo. acomodei-o entre as mãos de minha avó e quando fecharam o caixão, os dois ficaram juntos. 

já em casa, as crianças estavam exaustas. ajudei minha irmã com o banho deles e os colocamos pra dormir. o gabriel já sonolento me disse: 'tia, se a vovó ficar com medo, o passarinho pode cantar pra ela'. 

sorri e ele sorriu de volta com olhos tristes e meu estômago voltou a doer, porque eu estava apavorada e não havia quem pudesse cantar junto ao meu peito.