eu trabalho com crianças. mais que isso, porque eu penso nelas muito além das seis horas diárias de convivência que temos dentro da escola. eu sou assim, apaixonada por pessoas pequenininhas, com aquele olhar de descoberta e deslumbre sobre as coisas do mundo...
não poucas vezes, remeto a minha infância. é nas lembranças e memórias que encontro o que preciso pra responder a tanta vontade, a tanta disposição que os pequenos sempre querem de mim. e eu sinto que quanto mais me dedico, mais eles solicitam.
eu morei numa cidadezinha no interior do paraná. e lá eu vi coisas que muitas pessoas da minha idade que eu conheço não têm sequer noção do que seja. por exemplo: eu sei o cheiro que têm sabão caseiro, feito com soda cáustica e gordura (esse cheiro tráz uma lembraça de minha avó). eu sei como é o grito de um porco quando está sendo morto com uma machadada na cabeça. já tive bicho de pé, não só nos pés, mas nas pernas e nas mãos também. sei como é ferida de leite de manga verde. já moí café e adorava sentir os grãos sendo triturados e o cheiro gostoso que ficava grudado na gente depois.
já tomei banho em chuveiro a gás e também em chuveiro que nem era chuveiro: era uma lata que enchiamos de água quente e íamos puxando uma cordinha pra ela cair na nossa cabeça... quando acabasse, paciência!
sei como é banheiro orgânico (vulgo casinha) quatro paredes de madeira e um burraco no chão! gostava de arrancar cabelos de espiga de milho e brinquei de casinha dentro de um chiqueiro. chorava quando matavam alguma galinha.
ou seja, eu sou um bicho do mato disfarçado!
e eu me lembro da minha avó materna, com seu cachecól azul que nunca era lavado, com suas unhas compridas que beliscavam doído quando eu, minha irmã e os primos aprontavamos alguma! corríamos por aquele quintal enorme de terra batida e muitas árvores, e a velha atrás de nós com uma vassoura na mão!
- mas que menina, menina! aaaahhh menina! se eu te pego, menina!
entre essas e outras coisas, eu cresci ainda com a sensação de que não cresci. e é essa aline, a mesma que corria da avó pelo quintal, que esquentava os pés sujos perto do fogão a lenha, que não era flor que se cheirasse, mas talvez continue não sendo, que acorda todo dia às cinco e quarenta da manhã disposta a aprender um pouco e doar-se um pouco aos pequenos!
esse post era pra ser só uma introdução, porque o que de fato eu queria era colocar um vídeo da canção 'trilhares' do palavra cantada aqui. mas não encontrei nenhum (o youtube é uma droga!) essa musiquinha aí, tão simplezinha, tão curtinha, foi que me fez voltar assim nas lembranças... (nem sei o porquê) e em ter o desejo de compartilhá-las! momento nostalgias de aline...
trilhares
(paulo tatit)
as estrelas que de noite eu via
todas elas lá no céu estão
mesmo sem vê-las durante o dia
piscam no céu com o sol gordão
são trilhares de estrelas e eu nem sabia
que estão lá no céu até mesmo de dia
como pode o céu ter tanta estrela?
como pode, parece um mar de areia
a areia que na praia eu via
tantos grãos que estão lá no chão
punhadinho de areia que eu pego na mão
tantos grãos que não cabem na numeração
são trilhares de grãos e eu nem sabia
que esse número aumenta de noite e de dia
como pode uma praia tem tanta areia?
como pode, parece um céu de estrelas
tanta areia
tanta estrela
quinta-feira, 10 de julho de 2008
segunda-feira, 7 de julho de 2008
flicts
uma cor feinha. um beginho sem sal. tipo cor-de-burro-quando-foge!
não estava nas flores, não estava no arco-íris, simplesmente não se encontrava!
que "não tinha a força do vermelho, a imensidão do amarelo, nem a paz do azul. era apenas o fragil, feio e aflito flicts"
acho que todo mundo já se sentiu um tanto flicts!
se sente assim como uma folha solta, meio sozinho entre coisas onde não se reconheçe...
mas, de repente a gente se descobre onde menos espera! num passeio de bicicleta, em conversas que poderiam nunca acabar, num filme antigo, num sonho que parecia impossível mas que era só como se olhava pra ele... e de repente ele fica bem perto! e essas coisas tem formas esquisitas de acontecer na vida... num dia são banais, no outro passam a ser essenciais! e a gente nem lembra porque nunca deu importância...
não importa quanto tempo demore, cada um vai saber quando encontrar o que é seu!
como flicts que depois de tanto procurar, descobriu que uma coisa tão linda como a lua também é flicts!!!
e pensando bem... esse blog é assim um pouco flicts também...
não estava nas flores, não estava no arco-íris, simplesmente não se encontrava!
que "não tinha a força do vermelho, a imensidão do amarelo, nem a paz do azul. era apenas o fragil, feio e aflito flicts"
acho que todo mundo já se sentiu um tanto flicts!
se sente assim como uma folha solta, meio sozinho entre coisas onde não se reconheçe...
mas, de repente a gente se descobre onde menos espera! num passeio de bicicleta, em conversas que poderiam nunca acabar, num filme antigo, num sonho que parecia impossível mas que era só como se olhava pra ele... e de repente ele fica bem perto! e essas coisas tem formas esquisitas de acontecer na vida... num dia são banais, no outro passam a ser essenciais! e a gente nem lembra porque nunca deu importância...
não importa quanto tempo demore, cada um vai saber quando encontrar o que é seu!
como flicts que depois de tanto procurar, descobriu que uma coisa tão linda como a lua também é flicts!!!
e pensando bem... esse blog é assim um pouco flicts também...
sexta-feira, 4 de julho de 2008
caos e jardim
sabe... é muito mais do que o que você pode ver.
e eu sou muito além dessas linhas que escrevo.
por mais que elas tragam algo de mim.
o que eu sou de fato está guardado numa caixa.
que eu enterrei no quintal, perto da goiabeira.
sou sentimentos confusos.
desejos reprimidos.
palavras não ditas.
versos mal escritos.
lágrimas contidas.
sou chuva inoportuna.
e o sol ardido de depois.
sou uma mosca na velha.
e sou a velha a fiar.
trago minha casa nos ombros
e dentro dela uma porção de histórias.
verdades banais, mentiras brilhantes.
se encontram mas mais frequentemente perdem-se.
e eu também me perco.
entre quem eu não sou e quem eu gostaria de ser.
idealizo-me. confundo-me.
busco razões e justificativas.
e o que encontro é caos e jardim.
e eu sou muito além dessas linhas que escrevo.
por mais que elas tragam algo de mim.
o que eu sou de fato está guardado numa caixa.
que eu enterrei no quintal, perto da goiabeira.
sou sentimentos confusos.
desejos reprimidos.
palavras não ditas.
versos mal escritos.
lágrimas contidas.
sou chuva inoportuna.
e o sol ardido de depois.
sou uma mosca na velha.
e sou a velha a fiar.
trago minha casa nos ombros
e dentro dela uma porção de histórias.
verdades banais, mentiras brilhantes.
se encontram mas mais frequentemente perdem-se.
e eu também me perco.
entre quem eu não sou e quem eu gostaria de ser.
idealizo-me. confundo-me.
busco razões e justificativas.
e o que encontro é caos e jardim.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
a última vez
um dia acordou muito mais cedo que costumava acordar. levantou-se e ficou sentado à mesa com aquele olhar que eu já conhecia: longe... muito longe.
o mesmo olhar vago que no início me incomodava tanto, mas que eu sabia que não adiantava perguntar e me convenci que realmente não era nada.
quando coloquei diante dele o copo com o café sem açúcar de sempre, ele voltou 'de lá', de onde nasce o dia, tomou seu café num só gole e só disse: 'eu prefiro eu só'.
me deu um beijo na testa, como sempre. e saiu pela porta de sempre.
pra nunca mais.
e eu fiquei ali, sentindo ainda entre minhas pernas seu sêmen da última vez.
agora eu quero chorar...
eu sabia que aquele olhar queria dizer alguma coisa. o que será?
o mesmo olhar vago que no início me incomodava tanto, mas que eu sabia que não adiantava perguntar e me convenci que realmente não era nada.
quando coloquei diante dele o copo com o café sem açúcar de sempre, ele voltou 'de lá', de onde nasce o dia, tomou seu café num só gole e só disse: 'eu prefiro eu só'.
me deu um beijo na testa, como sempre. e saiu pela porta de sempre.
pra nunca mais.
e eu fiquei ali, sentindo ainda entre minhas pernas seu sêmen da última vez.
agora eu quero chorar...
eu sabia que aquele olhar queria dizer alguma coisa. o que será?
quarta-feira, 25 de junho de 2008
o que agora só ficou no pensamento
adoro viagens imaginativas... todos os dias são de sol!
até pode haver chuvas, desde que seja pra molhar um beijo. ou então que nos encontre sós, aconchegados um ao outro somente a admirá-la.
no plano das minhas idéias é proibido chover quando esqueço o guarda-chuva, quando estou menstruada, quando uso sandálias baixas ou ainda quando corto os cabelos!
tenho um plano! vamos viver pra sempre no plano das idéias perfeitas!
materialmente, minha viagens, minhas esperas, minhas histórias bonitas foram todas distorcidas, mal interpretadas, ignoradas ou simplesmente desprezadas.
falha de comunicação, problemas no teletransporte, o que for...
mas a verdade é que todas as deliciosas idéias que passeiam pela minha mente perdem um pouco do sabor quando aplicadas à realidade... às vezes por excesso de espectativa, às vezes por ingenuidade, ou ainda pela insistente mania que as cores têm de desbotar quando saem da imaginação! e por último, mas não menos frequente, pela intervenção de algum ser desprovido de qualidades que me cativem.
isso talvez faça de mim uma idiota sonhadora, personagem patetica de um mundo paralelo cujo único habitante é alguém que não se desprende de mim...
se o mundo é água, eu me afogo... o que eu bebo é mar, é praia...
até pode haver chuvas, desde que seja pra molhar um beijo. ou então que nos encontre sós, aconchegados um ao outro somente a admirá-la.
no plano das minhas idéias é proibido chover quando esqueço o guarda-chuva, quando estou menstruada, quando uso sandálias baixas ou ainda quando corto os cabelos!
tenho um plano! vamos viver pra sempre no plano das idéias perfeitas!
materialmente, minha viagens, minhas esperas, minhas histórias bonitas foram todas distorcidas, mal interpretadas, ignoradas ou simplesmente desprezadas.
falha de comunicação, problemas no teletransporte, o que for...
mas a verdade é que todas as deliciosas idéias que passeiam pela minha mente perdem um pouco do sabor quando aplicadas à realidade... às vezes por excesso de espectativa, às vezes por ingenuidade, ou ainda pela insistente mania que as cores têm de desbotar quando saem da imaginação! e por último, mas não menos frequente, pela intervenção de algum ser desprovido de qualidades que me cativem.
isso talvez faça de mim uma idiota sonhadora, personagem patetica de um mundo paralelo cujo único habitante é alguém que não se desprende de mim...
se o mundo é água, eu me afogo... o que eu bebo é mar, é praia...
terça-feira, 24 de junho de 2008
passa
pouco me importa. eu não entenderia mesmo.
distraio-me. eu não insisto.
não aguardo o momento oporturno pra sair de cena. o momento oportuno já passou da hora.
fica daí que eu fico de cá. se convém, a gente até negocia uma troca.
se não rolar, pouco me importa.
eu digo, e não sem alguma propriedade, que o que vale é levar uma vida leve...
verdade não fundamentada, porém experimentada. e estamos todos no mesmo barco... a diferença está nas acomodações...
portanto, mexa-se! dança a valsa vienense! faz-me rir um bocado.
e depois me ofereça algum aconchego.
que a graça tem que estar em alguma coisa. viver não pode ser só isso aqui. e se for, que seja então de mansinho... devagar...
não me venha com essa pressa! não me venha com tanta indignação... eu já senti do que esse mundo é capaz!
e sei que ninguém tá aqui de brincadeira.
só eu!
eu só vim aqui pra brincar!
distraio-me. eu não insisto.
não aguardo o momento oporturno pra sair de cena. o momento oportuno já passou da hora.
fica daí que eu fico de cá. se convém, a gente até negocia uma troca.
se não rolar, pouco me importa.
eu digo, e não sem alguma propriedade, que o que vale é levar uma vida leve...
verdade não fundamentada, porém experimentada. e estamos todos no mesmo barco... a diferença está nas acomodações...
portanto, mexa-se! dança a valsa vienense! faz-me rir um bocado.
e depois me ofereça algum aconchego.
que a graça tem que estar em alguma coisa. viver não pode ser só isso aqui. e se for, que seja então de mansinho... devagar...
não me venha com essa pressa! não me venha com tanta indignação... eu já senti do que esse mundo é capaz!
e sei que ninguém tá aqui de brincadeira.
só eu!
eu só vim aqui pra brincar!
sexta-feira, 20 de junho de 2008
estrabismo
ela tinha os olhos tortos...
ele não sabia explicar direito, mas os olhos dela tinham algo esquisito. não era exatamente vesga, mas um olho se movimentava diferente do outro e parecia que enquanto um se movia o outro permanecia parado.
certamente ela já notara o pequeno defeito do seu olhar. ele não se lembrava dela o olhando nos olhos.
era isso! ela não desviava o olhar porque mentia, fingia, ou por desinteresse.
era timidez! ela tinha medo que ele percebesse que ela era levemente e estranhamente estrábica!
agora estava tudo explicado! por isso ela trepava de olhos fechados. logo também não estava pensando em outro.
ele caiu em si! como fora ingênuo! tantos anos de convivência e tanta desconfiança, tanto ciúmes!
e, ora, ela era uma mulher comum!
uma estúpida mulher comum, que pagava em dia seu aluguel, que colecionava secretamente romances de banca de jornal, que fumava cigarros baratos, que se divertia com desenhos animados, que se embriagava com duas ou três latinhas de cerveja, que pintava as unhas de cor-de-rosa cintilante, que alugava filmes e devolvia sem assisti-los.
apesar disso ele a achava bonita! e já se acostumara ao cheiro de fumo misturado com o do dolce & gabanna que ela ganhara do irmão no aniversário.... perfume cheiroso! combinava com ela, apesar dela nunca usá-lo e dizer que não era chegada em fragâncias. o que costumava irritá-lo bastante! que tipo de mulher não usa perfumes?
a verdade é que ela tinha algo de andrógeno, e às vezes parecia mesmo um homem com aqueles malditos tênis encardidos e as calças curtas... mas, e justamente por isso, ela nunca arrumaria um amante! nenhum outro homem enxergaria qualquer beleza naquele olhar vesgo, nos cabelos sem corte, nas unhas curtas e quase sempre sujas de massinha de modelar.
sentiu-se culpado!
ela o amava! ela tinha vergonha dos olhos tortos! e do aparelho! por isso não o encarava e por isso não mostrava os dentes quando sorria.
agora tudo fazia sentido...
e ele quis voltar atrás...
- merda! por que diabos eu fui matar a vadia?
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